Como as startups envelhecem

Six beers

Estive pensando sobre o contraste entre startups e empresas grandes. Startups normalmente são lugares empolgantes, ágeis, divertidos, desafiadores. Grandes empresas, por outro lado, tendem a ser lugares burocráticos, acomodados e cheios de política.

Interessante pensar que grandes empresas muitas vezes já foram startups. E mesmo as que não foram, já foram menos asquerosas um dia. Elas se tornaram o que são como consequência de um processo de envelhecimento. E de fato se não tomarmos alguns cuidados, todos teremos o mesmo destino.

Como alguém que acompanhou e contribuiu para o crescimento de algumas empresas, falo sobre cuidados e situações em startups que contribuem para esse envelhecimento.

O caso Joselito Sem Noção

Joselito

Em algum momento, mais cedo ou mais tarde aparece na empresa um "Joselito sem noção". O Joselito é uma pessoa que abusa da flexibilidade de horário, vai trabalhar de sunga, pega os brindes da empresa para encher a mochila, etc. Neste momento a empresa começa a questionar sua forma de trabalhar já que estão abusando dela (mesmo que seja uma pessoa só). Uma reação natural nestes casos é simplesmente o corte dos benefícios.

"Colaboradores, como está havendo abuso em alguns dos nossos benefícios estamos estamos deixando de oferecê-los"

O Joselito que já não era comprometido mesmo sai da empresa. Ficaram os bons funcionários, cessaram os benefícios. A empresa ficou mais velha.

Um norte para esse tipo de situação é: Trate os problemas de forma generalizada se eles forem generalizados e de forma pontual se forem pontuais. Tente sempre tratar o problema no nível que ele é irradiado. Se o problema é o Joselito, converse com o Joselito. Se ele for sem noção novamente, converse mais uma vez. Se não funcionar talvez a empresa não seja o lugar certo para ele.

Uma regra geral deve ser tratada como último recurso. Se for usada com frequência pode sinalizar a incapacidade da empresa de resolver as coisas através de sua influência.

As ervas daninhas

Em uma startup normalmente as pessoas fazem de tudo, desde trabalhar no produto até fazer o café. Mesmo com a diversidade de funções, a maior parte do tempo e da energia são direcionados para desenvolver e promover o produto.

Seria natural pensar que na medida em que a empresa cresce, as pessoas conseguirão focar mais ainda no produto. Afinal a empresa agora tem dinheiro para bancar as atividades periféricas, como comprar uma máquina de café, hardware melhor, contratar alguém para cuidar da infraestrutura e rede, algo que tirava um pouco o foco delas do trabalho principal.

Porém é interessante perceber que o crescimento é acompanhado do surgimento de uma série de outras atividades periféricas: normas a serem executadas, estruturas de controle, documentações, reuniões e mais reuniões, etc. Enfim, o foco no produto se perde, e a energia é difusa. O que fez a empresa crescer e se tornar o que ela é (o produto) precisa dividir atenções com outras coisas menos importantes com benefícios questionáveis (as atividades periféricas).

O surgimento da burocracia é consequência comum de uma empresa em crescimento. Ela é como erva daninha, está sempre crescendo e causando rugas. É preciso arrancá-la constantemente. Para isso é necessário conhecimento, competência e manter as coisas simples.

Keep it simple, stupid

Porco

Apesar de termos famosos e bonitos exaltando a simplicidade, como KISS ou YAGNI, quando a empresa envelhece ela é mais desmerecida do que amada na prática. Frases do tipo "Isso nunca iria funcionar", bem como "e como isso funcionaria no caso hipotético XYZ (que nunca vai acontecer)" encontram lugar no cotidiano da empresa e se opõem a soluções simples que poderiam surpreender o mais enraizado cético caso fossem implementadas. Em contrapartida as soluções com belos power points e fluxogramas complexos encantam os diferentes níveis gerenciais, e seguem em frente mesmo que nunca vejam a luz do dia mais tarde. Essas situações sempre me fazem lembrar da fábula dos porcos assados.

Uma grande armadilha

itatrap2

A padronização é uma ferramenta útil. Afinal graças aos padrões é possível comprar uma pilha no mercado e encaixá-la em um aparelho, ou conectar meu novo equipamento de som na tomada. Uma armadilha está quando uma startup começa a aplicar padrões de forma generalizada (one-size-fits-all) motivada apenas por um senso estético. Tratando-se de desenvolvimento de sofware a situação pode se complicar ainda mais, já que cada projeto possui uma natureza única, podendo a generalização levar ao fracasso.

De uma forma geral, existe uma série de variáveis que definem os melhores métodos e tecnologias a serem utilizados em um projeto. Em termos de metodologia, por exemplo, um projeto de escopo fechado deve ser trabalhado de forma diferente de um projeto de escopo aberto. Assim como a tecnologia pode e deve ser influenciada pela natureza do projeto. Um CRUD tende a ser mais produtivo com a utilização de tecnologias do tipo ruby/rails. Contudo, para projetos compostos de muitas integrações pode ser melhor fazer em Java.

O problema do uso excessivo de padrões é o mesmo da falta de autonomia que ela causa na equipe. A empresa se torna responsável pelos métodos e tecnologias utilizadas, isso de certa forma diminuiu a responsabilidade da equipe pelo sucesso/fracasso do projeto e reduz seu comprometimento muitas vezes levados pelo pensamento: "a empresa disse que isso iria funcionar, eu não acho que vai funcionar". Em um dado momento as equipes passam a seguir os padrões para se proteger em caso de fracasso, e não por acreditar que eles levam ao sucesso.

Dado esse cenário é melhor fornecer ferramentas, conhecimento e experiência que ajudem a guiar a equipe rumo ao sucesso do que estabelecer processos e tecnologias padrões de desenvolvimento. Um bom exemplo de como estruturar isso e que serve como ponto de partida é: Enough of Processes - Lets do Practices. Ver também Context Driven School.

A fonte da juventude

Não existe fórmula mágica, mas um bom caminho é seguir os princípios que regem uma boa startup: foco no resultado, autonomia para os meios e valorização das pessoas.